O que é o controle externo da qualidade

A RDC 978/2025 define o controle externo da qualidade (CEQ) como a determinação da exatidão e do desempenho do processo analítico por meio de comparações interlaboratoriais conduzidas por um provedor de ensaio de proficiência (Art. 5º, inciso X). Na prática, o laboratório recebe amostras de conteúdo desconhecido, analisa-as na rotina e envia os resultados ao provedor, que os compara com um valor designado e com os resultados dos demais participantes.

O provedor deve ser acreditado conforme a ISO/IEC 17043 (Art. 5º, inciso XXXIX). No Brasil, há provedores como o PNCQ e a Controllab, cada um com calendário, formulário e critérios de avaliação próprios.

O CEQ não substitui o controle interno da qualidade (CIQ). O CIQ acompanha a estabilidade do sistema analítico a cada corrida; o CEQ verifica, nos intervalos definidos pelo programa, se os resultados do laboratório concordam com os de outros laboratórios ou com um valor de referência. A relação entre os dois está detalhada em como CEQ e CIQ se complementam.

O que a RDC 978/2025 exige do CEQ

A resolução trata o CEQ como parte obrigatória da gestão do controle da qualidade. Os requisitos centrais estão nos Arts. 185 a 189 e se completam com as regras de execução e de documentação.

Requisitos de controle externo na RDC 978/2025
ArtigoO que determina
Art. 172A gestão do controle da qualidade é composta, no mínimo, pelo CIQ e pelo CEQ.
Art. 173CIQ e CEQ devem ser realizados exclusivamente no serviço que executa os exames, vedada sua realização fora do estabelecimento.
Art. 185Todo serviço que executa exames de análises clínicas deve participar de programas de CEQ.
Art. 186A participação deve ser individual para cada serviço.
Arts. 187 e 188O CEQ deve ser realizado em todos os equipamentos em uso e para todos os analitos analisados.
Art. 189O serviço deve verificar, no mínimo anualmente, a disponibilidade de ensaios de proficiência para seus exames. Para os exames não contemplados, deve adotar formas alternativas de avaliação da exatidão descritas em literatura científica.
Art. 176, inciso VA documentação inclui o relatório de desempenho do CEQ emitido pelo provedor, com frequência mínima anual, para os exames que utilizam amostras-controle comerciais.
Arts. 115 e 117Os registros dos ensaios de proficiência devem estar atualizados e disponíveis e ser mantidos por, no mínimo, cinco anos.

O Art. 87 acrescenta que a efetividade da gestão do controle da qualidade deve ser monitorada pelo responsável técnico por meio de indicadores de desempenho. O resultado do CEQ é uma das evidências mais diretas dessa efetividade. Para o panorama completo da norma, veja o que muda no controle da qualidade com a RDC 978/2025.

O que PALC, DICQ e ISO 15189 acrescentam

As normas de acreditação partem da mesma base, mas detalham como a participação deve acontecer e quais evidências o avaliador espera encontrar.

Norma PALC 2021 (SBPC/ML)

  • Participar ativamente e de forma contínua de pelo menos um programa de avaliação externa da qualidade oferecido por provedor habilitado, em todos os ensaios disponíveis para o menu de exames do laboratório (requisito 11.11).
  • Manusear e analisar os materiais da mesma forma, pelos mesmos sistemas analíticos e pelas mesmas pessoas que analisam as amostras de clientes. Não usar resultados obtidos em laboratório de apoio, em outra unidade processadora ou por consulta a outros laboratórios (11.12).
  • Analisar criticamente os relatórios com a equipe envolvida e registrar a avaliação. Resultados inadequados exigem investigação da causa raiz, ação corretiva e análise da efetividade; as tendências devem ser avaliadas e as ações preventivas, programadas (11.13).
  • Manter participação individual para cada unidade que realiza exames (11.14).
  • Para analitos sem programa disponível, manter uma avaliação externa alternativa documentada, com limites de aceitabilidade, critérios e periodicidade definidos, também analisada criticamente (11.15 e 11.16).

Manual de acreditação SNA-DICQ (8ª edição)

  • Participar efetivamente de um programa de CEQ e ser avaliado em todos os analitos que o laboratório realiza, desde que o provedor disponha de amostra (5.6.3.1).
  • Estabelecer controle de qualidade alternativo, sempre que possível, quando não houver amostra disponível (5.6.3.2).
  • Analisar as amostras do CEQ pelos mesmos processos das amostras dos clientes, sem distinção; a evidência pedida inclui os dados brutos da análise (5.6.3.3).
  • Avaliar os relatórios com a participação do diretor do laboratório, do responsável pela garantia da qualidade e dos profissionais que realizaram os ensaios, registrando causas e ações. Resultados inaceitáveis exigem ações corretivas ou preventivas (5.6.3.4).

ISO 15189:2022

O item 7.3.7.3 pede que o laboratório monitore o desempenho dos seus métodos por comparação com outros laboratórios, em programas adequados aos exames, com as amostras processadas pelo pessoal que executa a rotina. Quando não houver programa disponível ou adequado, o laboratório deve usar abordagens alternativas, justificá-las e demonstrar sua eficácia. Quando os critérios não são atendidos, o tratamento segue os requisitos de trabalho não conforme (7.5) e de ações corretivas (8.7), que incluem avaliar o impacto sobre resultados já liberados.

Onde cada referência trata o mesmo tema
AssuntoRDC 978/2025PALC 2021DICQ, 8ª ed.ISO 15189:2022
Participação em programa de CEQArt. 18511.115.6.3.17.3.7.3
Todos os analitos e equipamentosArts. 187 e 18811.115.6.3.17.3.7.3
Participação individualArt. 18611.14——
Análise igual à das amostras de pacientesArt. 17311.125.6.3.37.3.7.3
Análise crítica, causa e ação corretivaArt. 8711.135.6.3.47.3.7.3 e 8.7
Exames sem programa disponívelArt. 18911.15 e 11.165.6.3.27.3.7.3
RegistrosArts. 115, 117 e 17611.135.6.3.48.4

A tabela resume as edições citadas. As normas de acreditação são revistas periodicamente: confirme os requisitos na edição vigente e no escopo do seu processo de acreditação laboratorial.

Como conduzir uma rodada, passo a passo

  1. Planeje o ano. Compare o escopo do programa com o menu de exames e os equipamentos em uso, registre o calendário de envio dos kits e os prazos de resposta e identifique os analitos sem cobertura.
  2. Receba o kit. Registre a data, a condição de transporte e a integridade das amostras. Comunique ao provedor um kit danificado ou não recebido dentro do prazo do programa.
  3. Analise como rotina. Prepare as amostras conforme as instruções do provedor e analise-as no fluxo normal, pelos mesmos analistas e equipamentos. Não repita a análise mais vezes do que repetiria a de uma amostra de paciente.
  4. Confira antes de enviar. Outra pessoa compara o resultado do equipamento com o que será digitado no formulário: unidade, casas decimais, identificação da amostra, método e equipamento informados.
  5. Envie no prazo e guarde o comprovante. Registre o canal, o protocolo e os valores enviados. Uma correção depois do envio deve seguir a regra do provedor e ficar registrada com o motivo.
  6. Analise a avaliação. Confira o grupo de comparação, o valor designado, o critério aplicado e o resultado de cada analito, e registre a análise crítica com a equipe.
  7. Trate os resultados inadequados. Investigue a causa raiz, avalie o impacto nos resultados de pacientes, defina a ação corretiva e verifique a eficácia nas rodadas seguintes.
  8. Feche o ciclo. Acompanhe a participação e a adequação no ano do programa, guarde o certificado e use os dados no relatório anual de desempenho.

Como ler o relatório do provedor

Antes de olhar o conceito, confira a base da comparação. Boa parte das avaliações inadequadas que não têm origem analítica nasce aqui.

  • Valor designado: pode vir do consenso dos participantes, geral ou do grupo do mesmo método, de um método de referência ou do valor certificado do material. Consensos de grupos com poucos participantes são menos robustos.
  • Grupo de comparação: o método, o reagente e o equipamento declarados na inscrição definem com quem o resultado é comparado. Um cadastro desatualizado pode produzir uma avaliação inadequada sem erro analítico.
  • Critério de avaliação: escore Z, índice de desvio, limite fixo em torno do alvo ou faixa de aceitação. Cada programa define o seu, e o conceito oficial é sempre o do provedor.

As medidas mais usadas

Medidas de desempenho em ensaios de proficiência
MedidaCálculoInterpretação usual
Desvio relativo100 × (resultado − valor designado) ÷ valor designadoMostra o tamanho e o sentido do desvio em porcentagem; útil para comparar com o erro total admissível do analito.
Escore Z(resultado − valor designado) ÷ desvio-padrão para avaliação de proficiênciaPela ISO 13528, |z| até 2 é satisfatório; entre 2 e 3, questionável (sinal de alerta); a partir de 3, insatisfatório (sinal de ação).
Índice de desvio(resultado − valor designado) ÷ limite de aceitaçãoValores até 1, em módulo, indicam resultado dentro do limite definido pelo programa.
SDI(resultado − média do grupo) ÷ desvio-padrão do grupoPosição do resultado entre os pares do mesmo método; leitura semelhante à do escore Z.

O desvio-padrão usado no escore Z é definido pelo provedor: pode ser calculado a partir dos resultados dos participantes ou fixado conforme a finalidade do exame. Por isso, o mesmo desvio absoluto pode gerar escores diferentes em programas diferentes.

Exemplo: o mesmo resultado, critérios diferentes

Considere glicose com valor designado de 100 mg/dL, desvio-padrão para avaliação de 3 mg/dL e, em outro programa, limite de aceitação de ±10%.

Glicose com valor designado de 100 mg/dL
Resultado enviadoDesvio relativoEscore ZÍndice de desvioLeitura
104 mg/dL+4,0%1,330,40Adequado nos dois critérios
109 mg/dL+9,0%3,000,90Insatisfatório pelo escore Z; aceitável pelo limite de ±10%
112 mg/dL+12,0%4,001,20Inadequado nos dois critérios
Escala do escore Z com as faixas satisfatória, questionável e insatisfatória e os três exemplos de glicose
Faixas de interpretação do escore Z segundo a ISO 13528, com os exemplos da tabelaClique para ampliar

O segundo caso mostra por que o laboratório deve avaliar o resultado pelo critério do seu programa e, ainda assim, observar a proximidade do limite. Um resultado aceito por pouco, repetido em rodadas seguidas, merece a mesma atenção de uma reprovação isolada.

Resultado inadequado: como investigar

Um resultado inadequado é o início de uma investigação, não um número a corrigir. Repetir a amostra até obter um valor aceitável, ou enviar uma correção sem causa identificada, não atende à análise crítica exigida pelas normas e esconde o problema que o CEQ deveria revelar.

Antes de procurar uma falha analítica, descarte as causas mais simples. Com frequência, o problema está na transcrição ou no cadastro do grupo de comparação.

Roteiro de investigação de um resultado inadequado
CategoriaO que conferir
Transcrição e cadastroUnidade, casas decimais, troca de amostras ou de analitos, método e equipamento declarados ao provedor.
Preparo da amostraReconstituição (volume, diluente e tempo), homogeneização, armazenamento e estabilidade até a análise.
Processo analíticoCalibração, lote de reagente, manutenções e o CIQ do dia e das semanas anteriores, incluindo tendências e alertas.
Material e avaliaçãoEfeito de matriz, grupo de comparação pequeno ou inadequado, valor designado questionável. Se houver suspeita de erro na avaliação, use o recurso previsto pelo provedor dentro do prazo.
Erro aleatórioConclusão possível apenas depois de excluídas as demais causas. Registre o raciocínio e acompanhe as rodadas seguintes.

Em seguida, avalie se o problema pode ter afetado resultados de pacientes do mesmo período. Se o CIQ estava estável e a causa foi de transcrição, o impacto tende a ser nulo; se houve erro sistemático no sistema analítico, a revisão dos laudos liberados precisa ser considerada. Registre a conclusão, a ação corretiva, o responsável e como a eficácia será verificada, normalmente pelo desempenho do analito nas rodadas seguintes.

Para estruturar esse registro, veja sete atitudes diante de uma não conformidade e o guia de ações corretivas e estabilidade do sistema.

Olhe além da rodada: tendências no ciclo

Uma rodada isolada mostra pouco. Ao longo do ciclo do programa, observe:

  • Resultados sempre do mesmo lado do valor designado, mesmo dentro do limite, o que sugere viés a confirmar no CIQ.
  • Desvios que aumentam em uma faixa de concentração específica.
  • Analitos com desempenho pior depois de troca de lote, calibração ou manutenção.
  • A porcentagem de resultados adequados por analito e por programa no ano.

O desvio relativo médio de várias rodadas é uma estimativa útil do viés e pode alimentar a métrica sigma, desde que comparado a um erro total admissível com fonte documentada.

Quando não existe ensaio de proficiência

Para exames não contemplados por programas, a RDC 978/2025 exige formas alternativas de avaliação da exatidão descritas em literatura científica (Art. 189, parágrafo único), e o PALC pede que essa avaliação seja documentada com limites, critérios e periodicidade (11.15). As alternativas mais comuns são:

  • Comparação interlaboratorial com outro laboratório que execute o mesmo exame, por troca de amostras.
  • Análise de materiais de referência ou de materiais com valor certificado.
  • Comparação com outro método, de preferência de referência, no próprio laboratório ou em laboratório parceiro.
  • Validação clínica, como a correlação com o diagnóstico ou com outros exames do paciente.

Repita a verificação de disponibilidade pelo menos uma vez por ano: programas novos surgem e o menu do laboratório muda.

Indicadores e registros que sustentam uma auditoria

Indicadores simples permitem ao responsável técnico demonstrar o monitoramento previsto no Art. 87 e ao laboratório perceber mudanças antes de uma reprovação.

  • Participação: rodadas enviadas no prazo em relação às rodadas previstas no ciclo.
  • Adequação: resultados adequados em relação aos resultados avaliados, por analito e por programa.
  • Tempo de resposta: dias entre a liberação do relatório e a conclusão da análise crítica.
  • Recorrência: analitos com resultados inadequados em mais de uma rodada.
  • Eficácia: ações corretivas confirmadas pelo desempenho nas rodadas seguintes.

Mantenha juntos, por rodada, o registro de recebimento, os dados brutos da análise, a conferência e o comprovante do envio, o relatório do provedor, a análise crítica com os participantes e as ações tomadas. Esses registros devem ficar disponíveis por pelo menos cinco anos (Art. 115) e alimentam o relatório anual de desempenho previsto no Art. 176, inciso V.

Como organizar o CEQ ao longo do ano

Com vários programas, provedores e prazos ao mesmo tempo, o CEQ costuma se espalhar entre e-mails, portais dos provedores, planilhas e pastas. O que mais ajuda é reunir em um só lugar o calendário e as pendências, o vínculo de cada analito do programa com o CIQ do mesmo equipamento, o registro do que foi enviado e o histórico das avaliações e das ações.

No QualiChart, o módulo de controle externo segue essa sequência: rodadas com calendário oficial e alertas de prazo, resultados ligados ao CIQ do dia da análise, conferência e envio com cópia de cada versão enviada, registro do conceito oficial com desvio relativo, índice de desvio e escore Z calculados para apoio, não conformidades com verificação de eficácia e o desempenho do ciclo ao lado do certificado do provedor.

Desempenho do ciclo com rodadas pela competência, adequação, critérios do certificado e resultado oficial
Desempenho do ciclo · participação, adequação e resultado oficial · dados demonstrativosClique para ampliar

Veja como funciona o controle externo no QualiChart

Dúvidas frequentes

Com que frequência o laboratório deve participar do CEQ?

A RDC 978/2025 não fixa um número de rodadas: exige participação em programas que cubram todos os analitos e equipamentos em uso e um relatório de desempenho com frequência mínima anual. A frequência das rodadas é definida por cada programa, e o PALC exige participação ativa e contínua.

Posso enviar a amostra do ensaio de proficiência a um laboratório de apoio?

Não. O Art. 173 da RDC 978/2025 exige que o CEQ seja realizado no próprio serviço, e o PALC proíbe usar resultados obtidos em laboratórios de apoio, em outras unidades ou por consulta a outros laboratórios.

Um laboratório com duas unidades pode ter uma inscrição única?

Não. A participação deve ser individual para cada serviço (Art. 186) e, no PALC, para cada unidade que realiza exames (11.14).

Um resultado inadequado obriga a revisar laudos de pacientes?

Não automaticamente. A investigação deve concluir se a causa poderia ter afetado resultados liberados no período. Erros de transcrição costumam não ter impacto; erros sistemáticos do sistema analítico exigem avaliar os laudos e registrar a decisão.

O que fazer quando o laboratório discorda da avaliação do provedor?

Confira primeiro o grupo de comparação, a unidade e o cadastro do método. Se a suspeita de erro na avaliação persistir, use o recurso previsto pelo provedor dentro do prazo e registre o resultado do pedido.

Por quanto tempo os registros do CEQ devem ser guardados?

Por pelo menos cinco anos, conforme o Art. 115 da RDC 978/2025, incluindo relatórios do provedor, análises críticas e ações tomadas.

Referências utilizadas

  1. Anvisa. Resolução RDC nº 978/2025, texto oficial no Anvisalegis
  2. Anvisa. Perguntas e respostas sobre a RDC 978/2025
  3. Anvisa. Módulo de controle externo da qualidade
  4. SBPC/ML. Norma PALC 2021: Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos
  5. SNA-DICQ. Manual para acreditação do sistema de gestão da qualidade de laboratórios clínicos, 8ª edição
  6. ISO 15189:2022. Medical laboratories: requirements for quality and competence
  7. ISO/IEC 17043:2023. Conformity assessment: general requirements for the competence of proficiency testing providers.
  8. ISO 13528:2022. Statistical methods for use in proficiency testing by interlaboratory comparison.