1. O que é sigma analítico e quando usar
A métrica sigma analítica reúne o erro total permitido (TEa), o viés e a imprecisão para avaliar o desempenho de um exame quantitativo em relação a uma meta. Seis Sigma, Six Sigma e 6 sigma são expressões usadas nesse contexto; o resultado calculado pode ser menor ou maior que seis. [1]
Use-a para apoiar a avaliação de um método, planejar o controle interno da qualidade (CIQ), comparar equipamentos sob critérios equivalentes e acompanhar melhorias. Comece por um analito, equipamento e nível de concentração. Uma nota única para todo o laboratório pode esconder o nível que exige mais atenção. [2]
2. TEa: escolha a meta antes de olhar o resultado
TEa é a especificação de erro total aceitável para o uso pretendido do exame. Não é o erro medido na sua rotina nem a imprecisão máxima. A meta de CV limita a dispersão; o TEa estabelece uma tolerância que considera o desempenho analítico de forma mais ampla. [1][3]
O consenso de Milão descreve modelos de especificação baseados em desfechos clínicos, variação biológica e estado da arte. A adequação depende do mensurando e da aplicação. Na base EFLM, confira matriz, qualidade da evidência e nível da especificação; não copie o CV intraindividual ou o limite de imprecisão para o campo de TEa. [3][4]
O CLIA publica critérios de aceitação para ensaios de proficiência nos Estados Unidos. Eles podem fundamentar uma meta documentada, mas não se tornam automaticamente uma obrigação brasileira nem demonstram adequação a toda decisão clínica. Registre a fonte, a versão, a unidade e a justificativa. Mudar a meta para elevar o sigma não melhora o método. [5]
3. Viés (bias): qual é o valor de comparação?
O viés estima o afastamento sistemático da média observada em relação a um valor de referência ou alvo. Uma referência com rastreabilidade e material adequado é diferente de uma média de grupo de pares. O consenso dos pares permite comparar sistemas semelhantes, mas pode compartilhar um desvio em relação a uma referência de ordem superior. [2]
O alvo da bula de um material ensaiado pode fornecer uma estimativa prática quando não há referência melhor disponível. Use o valor correspondente ao lote, método e unidade. Considere efeitos de matriz, comutabilidade e incerteza do valor atribuído: esse resultado não comprova, isoladamente, a veracidade em amostras de pacientes. [2]
Viés (%) = 100 × (média observada − alvo) ÷ alvo
Preserve o sinal para investigar a direção do desvio; na fórmula do sigma, use o módulo. Comparar a média observada com ela mesma produz viés zero por construção. A média local usada para centralizar um gráfico de controle não passa a ser, por isso, uma referência independente de exatidão. [6]
4. CV: use dados representativos da rotina
CV (%) = 100 × desvio padrão ÷ média observada
Estime a imprecisão com resultados do mesmo nível e sistema de medição, em condições definidas. Repetições na mesma corrida descrevem repetibilidade; dados de diferentes dias e condições de rotina podem refletir uma variabilidade maior. Informe qual desenho foi usado. Não substitua o CV observado pelo CV máximo desejável. [1]
Documente período, número de observações, lote, equipamento e critérios de inclusão. Poucas observações deixam a estimativa instável: ser possível calcular um DP com dois resultados não torna esse sigma robusto para redesenhar o CIQ. Defina a amostragem no protocolo de avaliação e examine o gráfico de controle antes de resumir a série.
Não exclua resultados apenas para melhorar o indicador, nem substitua toda falha pela repetição aprovada. Investigue causas atribuíveis, preserve a rastreabilidade e aplique uma política documentada para exclusões e repetições. Misturar períodos antes e depois de uma mudança relevante pode ocultar tanto a falha como a recuperação.
5. Como calcular sigma: exemplo completo
Sigma (σ) = (TEa% − |viés%|) ÷ CV%
Considere um exemplo didático: alvo de 100 mg/dL, média observada de 101 mg/dL, DP de 2,02 mg/dL e TEa de 10%. O viés é +1%; o CV é 2%; sigma = (10 − 1) ÷ 2 = 4,5. Essa meta é hipotética, não uma recomendação para um analito.
Com os demais termos iguais, aumentar o viés para 3% reduz sigma para 3,5; aumentar o CV para 3% reduz sigma para 3. A investigação precisa separar deslocamento da média de aumento da dispersão. O número sozinho não identifica a causa.
Declare a convenção dos denominadores. O CV usual é relativo à média observada, enquanto o viés percentual costuma ser relativo ao alvo. Não presuma equivalência exata com (tolerância absoluta − |diferença absoluta|) ÷ DP quando as bases diferem. Para comparação rigorosa, mantenha uma convenção documentada e coerente entre estudos. [6]
6. TEa percentual, absoluto e misto: exemplo do CLIA
Na tabela de química de rotina do CLIA, glicose tem tolerância de ±8% ou ±6 mg/dL, o que for maior. Para aplicar esse tipo de especificação, converta os limites para a mesma unidade usando o valor-alvo. Não compare diretamente os números 8 e 6, não os some e não escolha o menor. [5]
| Alvo (mg/dL) | 8% | 6 mg/dL | TEa efetivo (%) |
|---|---|---|---|
| 50 | 4 mg/dL | 6 mg/dL | 12% |
| 75 | 6 mg/dL | 6 mg/dL | 8% |
| 100 | 8 mg/dL | 6 mg/dL | 8% |
| 250 | 20 mg/dL | 6 mg/dL | 8% |
Com limite somente absoluto, TEa% = 100 × limite absoluto ÷ alvo. Com ambos, use o maior entre esse percentual e o percentual especificado. Abaixo de 75 mg/dL no exemplo, predomina o limite absoluto; acima, o percentual. A regra vem da especificação escolhida, não de uma decisão para favorecer o resultado.
Cada nível usa seu próprio alvo. Converter mg/dL para mmol/L exige converter também o limite absoluto. Não use a média observada para deslocar a fronteira de aceitação: isso faria a própria alteração do método mudar a meta. Outras especificações podem ter regras diferentes; transcreva a condição completa.
7. Como interpretar o valor sigma
As faixas abaixo são rótulos convencionais de comunicação, não categorias legais ou autorização automática para reduzir controles. Leia o valor junto com o TEa adotado, a qualidade da estimativa do viés, o período e cada nível avaliado. [1][7]
| Sigma | Interpretação usual |
|---|---|
| σ ≥ 6 | Classe mundial |
| 5 ≤ σ < 6 | Excelente |
| 4 ≤ σ < 5 | Bom |
| 3 ≤ σ < 4 | Marginal |
| 2 ≤ σ < 3 | Ruim |
| σ < 2 | Inaceitável na classificação convencional |
Um sigma negativo significa que o módulo do viés excede o TEa, desde que CV e entradas sejam válidos. Preserve esse resultado e investigue. CV zero, alvo inadequado ou dados insuficientes não justificam anunciar desempenho infinito. Valores muito altos também pedem conferência da unidade, da meta e do conjunto de dados.
8. Da interpretação ao plano de controle
As Westgard Sigma Rules relacionam desempenho, regras estatísticas e número de medições de controle. Consulte o diagrama correspondente ao número de níveis e ao desenho do procedimento. A frequência também depende de volume de amostras, estabilidade, intervenções, consequências de erro e requisitos aplicáveis; sigma isolado não define o intervalo entre controles. [7][8]
| Situação | Ação prática |
|---|---|
| CV elevado, viés pequeno | Investigue pipetagem, homogeneização, estabilidade do material, temperatura e repetibilidade do equipamento. |
| CV baixo, viés elevado | Confira alvo, unidade, método, calibração e mudanças de lote; confirme a hipótese com evidência independente. |
| Desempenho baixo persistente | Avalie a adequação do método à aplicação clínica. Aumentar controles não corrige um método inadequado. |
| Sigma alto e série estável | Revise a eficiência do plano com avaliação de risco, sem dispensar CIQ, avaliação externa ou instruções do fabricante. |
Essas são linhas de investigação, não diagnósticos. Se houver evidência de perda de controle, siga o procedimento de contenção, investigação, verificação da correção e avaliação de resultados potencialmente afetados. Aguarde evidência de recuperação; uma repetição aprovada ou um sigma histórico alto não encerra a análise. [8]
9. Acompanhamento mensal, histórico e mudanças de lote
Uma revisão mensal pode integrar a análise periódica do CIQ; outra periodicidade pode ser mais adequada ao volume e ao risco. Reavalie após manutenção importante, recalibração, troca de lote ou mudança persistente no gráfico. Registre a intervenção e compare períodos definidos com a mesma especificação. [2]
O histórico acumulado oferece contexto, mas pode diluir uma deterioração recente. O mês isolado é mais sensível a poucos resultados. Mostre os dois com número de observações e período; não faça a média simples dos sigmas mensais para obter o sigma acumulado. Recalcule média, DP e viés sobre a série definida.
Separe níveis, equipamentos e lotes com alvos diferentes. Ao revisar a fonte ou a versão do TEa, identifique a mudança: uma série recalculada com a nova meta não representa necessariamente a decisão tomada à época. Preserve os registros necessários para reconstruir a avaliação.
10. Exercício: por que os níveis podem ter sigmas diferentes?
Use a regra ilustrada para glicose, 8% ou 6 mg/dL, o maior. No nível 1, alvo 50 mg/dL, média 50,5 mg/dL e CV 2%. No nível 2, alvo 100 mg/dL, média 101 mg/dL e CV 2%. Os dados de desempenho são fictícios. Qual é o sigma de cada nível?
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O viés é +1% nos dois níveis. No nível 1, 6 mg/dL equivalem a 12%; sigma = (12 − 1) ÷ 2 = 5,5. No nível 2, prevalecem 8%; sigma = (8 − 1) ÷ 2 = 3,5. O CV e o viés percentual são iguais; a diferença vem da tolerância relativa à concentração. Não escolha só o melhor nível para representar o método.
11. Dúvidas frequentes e limites de interpretação
Sigma 6 significa 3,4 erros por milhão de exames?
Não automaticamente. Essa associação industrial depende de pressupostos, incluindo o deslocamento de 1,5 DP e um modelo de distribuição. O sigma analítico não é uma contagem observada de resultados incorretos nem permite inferir diretamente o risco de dano ao paciente. Não acrescente ou subtraia 1,5 da fórmula sem explicitar outro modelo. [9]
Posso assumir viés zero se não conheço o alvo?
Não apresente esse cálculo como sigma completo. TEa/CV com viés zero é, no máximo, um cenário hipotético claramente identificado. Busque uma referência adequada; material não ensaiado pode ajudar a estimar imprecisão, mas não fornece por si só um alvo independente para viés.
Sigma substitui o gráfico de Levey-Jennings?
Não. O gráfico mostra sequência temporal, deslocamentos, tendências e dispersão. Sigma resume dados sob uma especificação. Séries instáveis ou misturas de populações podem produzir um resumo enganoso; examine o comportamento antes de classificar.
Serve para exames qualitativos e qualquer concentração?
Esta fórmula usa resultados quantitativos com média, alvo e CV interpretáveis. Categorias como reagente/não reagente exigem outras medidas de desempenho. Próximo de zero, percentuais e CV podem ficar instáveis; escalas especiais e limites de quantificação exigem avaliação própria. Não force a fórmula onde seus pressupostos não se sustentam.
12. Roteiro para aplicar na próxima revisão do CIQ
- Selecione analito, método, equipamento, lote, nível e período.
- Justifique o TEa e registre fonte, versão, unidade e regra de combinação.
- Confira a referência do viés e a representatividade dos dados de CV.
- Calcule por nível, sem arredondar os termos antes do resultado final.
- Confronte com o gráfico, a avaliação externa, as intervenções e o risco clínico.
- Registre a decisão, o responsável, a ação e a próxima revisão. Verifique se a ação trouxe melhora sustentada.
Para aprofundar os componentes, consulte também:
Referências utilizadas
Fontes consultadas em 19 de setembro de 2026. Exemplos numéricos de desempenho e roteiros de aplicação são didáticos. Para os documentos CLSI, foi consultada a descrição pública do escopo; a aplicação integral exige acesso ao documento correspondente.
- Westgard JO. Best Practices for “Westgard Rules”. Westgard QC.
- Westgard SA. Questions from the Sigma Stronger webinar. Westgard QC, 2021.
- Sandberg S et al. Defining analytical performance specifications: Consensus Statement from the 1st Strategic Conference of the EFLM. Clin Chem Lab Med. 2015;53(6):833–835. doi:10.1515/cclm-2015-0067.
- EFLM. Biological Variation Database.
- HHS/CMS. 42 CFR §493.931 — Routine chemistry, Table 2. 2025 edition.
- Westgard SA. Q & A: The basis of bias%? Westgard QC.
- Westgard JO, Westgard SA. Westgard Sigma Rules. Westgard QC, 2014.
- CLSI. EP23: Laboratory Quality Control Based on Risk Management. 2nd ed., 2023.
- Westgard QC. Questioning Six Sigma metrics for the Laboratory.



